quinta-feira, junho 18, 2009

encontrei este texto entre meus e-mails. traduz um pouco o que sinto sobre esse silêncio que nos permeia.

Antes que nos roubem a luz

São bastante conhecidos os versos do poeta fluminense Eduardo Alves da Costa, mais de 30 anos, aliás, erroneamente atribuídos a Maiakovski: Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada./ Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada./ Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.
Vem bem a calhar a lembrança destes versos no recente confronto, dentro do campus universitário, de professores, funcionários e estudantes da USP com a polícia militar paulista. É de espantar o silêncio da comunidade acadêmica no país, das inúmeras entidades dos direitos humanos existentes, da Ordem dos Advogados do Brasil, da Associação Brasileira de Imprensa, enfim, da sociedade civil organizada, num episódio que representa um estrondoso desrespeito a um dos lugares mais caros ao desenvolvimento do pensamento crítico e da reflexão e, portanto, espaço primeiro a garantir, obrigatoriamente, a liberdade de expressão: a Universidade.
A invasão do campus universitário da USP pela tropa de choque da polícia militar paulista, a utilização de balas de borracha, gás pimenta, gás lacrimogêneo e cassetetes contra estudantes, funcionários e professores, entre estes, inclusive, alguns que tentavam mediar o confronto e apaziguar os ânimos, não é um fato localizado, é uma agressão à nação. Calar, neste momento, é colocar a sociedade brasileira à mercê do arbítrio novamente.
Há quem tenha lembrado da ditadura. O episódio, sem dúvida, lembra mesmo os anos do regime militar, mas pasme-se: a Reitora Suely Vilela, ao permitir o ingresso da PM paulista no campus da USP, conseguiu se sair ainda pior. Em plena ditadura militar, o diretor da Filosofia da UFRGS, Ângelo Ricci, impediu a entrada da polícia na Faculdade, cujo prédio fora tomado pelos estudantes. Ricci, diga-se de passagem, não era militante da resistência à ditadura, mas teve a clara compreensão de que a Faculdade não era lugar para polícia. Acabou expurgado da Universidade. Foi o preço pago por sua lucidez. Mas com serena dignidade nos manteve ainda com uma luz em anos tão sombrios. Luz que a sociedade civil, se não se manifestar sobre os episódios da USP, está arriscada a deixar que levem.

Noeli Tejera Lisbôa

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